Caderno novo - Luis Fernando Veríssimo

Uma vez eu estava conversando com amigos e a conversa chegou naquele estágio em que só há duas opções: ou ir para casa dormir ou cair na bobagem. 
Caímos na bobagem. Afinal é para isso que servem os amigos. 
Depois de nos propormos vários desafios do tipo “quem era que melhor gritava de pavor no cinema?”, chegamos a uma daquelas questões definitivas e definidoras. Qual é a melhor sensação do mundo? 
As respostas variaram, desde “banho quente” até “acordar cedo, começar a sair da cama e então lembrar que é feriado”, passando, claro, por outras menos publicáveis. Mas aí um amigo disse duas palavras que liquidaram a questão.
- Caderno novo.
Todos concordaram. Não foi preciso nem entrar em detalhe, dizer “a sensação de abrir um caderno novo, no primeiro dia da escola, e alisar com a ponta dos dedos a página vazia, sentindo o volume de todas as páginas vazias por trás dela, aquele mundo de coisas ainda não escritas... E o cheiro do caderno!” Não houve um que não concordasse que nenhuma sensação do mundo se igualava aquela. 
O caderno novo também nos provocava uma certa solenidade, lembra? Diante de sua limpeza, fazíamos um juramento silencioso que aquele ano seríamos alunos perfeitos. E realmente caprichávamos ao preencher o caderno novo com cuidado respeitoso. Pelo menos até a quarta ou quinta página, quando então voltávamos a ser os mesmos relaxados do ano anterior.
Mesmo porque aí o caderno não era mais novo.


Luís Fernando Veríssimo (Revista Veja. São Paulo, Abril, 12 out. 1983. N. 788)



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